Argumento
França, início dos anos 80. Sophie é uma pequenita, filha de emigrantes polacos, que frequente a mesma escola que Julien, um francês de gema. Ela é a vítima da intolerância infantil, o alvo de todas as partidas, sofridas pela sua origem estrangeira. O pequeno Lucien dá-lhe a mão. Tornam-se inseparáveis. A mãe dele morre, de doença incurável. Ela está lá, fá-lo sorrir. E nisto, subitamente, vamos encontrá-los já jovens adultos. Da infância trouxeram a sua relação especial e um jogo privado: um pequeno tamborete que ambos gostavam fica no poder de um ou de outro conforme cada um deles executa, ou não, uma tarefa designada. Desde pequenos que as missões exigidas estavam longe de serem pacíficas: pelo jogo ou através dele, Sophie e Lucien revelam-se uns autênticos diabinhos, capazes de practicar as piores diabruras em nome do desafio e da sua amizade mútua.

Com o fosso temporal introduzido, as coisas não mudaram. Aos 20 anos, mais coisa menos coisa, as traquinices continuam. Os namorados e namoradas entraram nas suas vidas, assim como as pequenas obrigações de um jovem adulto. Mas em breve a sua relação começará a ser posta à prova, com a necessidade natural daquela fase da vida em enfrentar os sentimentos que os unem. Haverá espaço para uma relação entre um homem e uma mulher no que toca a Sophie e Julien? A questão é suficientemente poderosa para abalar o que quer que seja que existisse entre eles, e inicia-se um período de separação, provocado pelas desavenças que as novas tensões trouxeram. Alguns anos mais tarde, reencontram-se, fugazmente, para novas diabruras, agora mais entre eles do que projectadas para o mundo exterior. Lucien casa-se, Sophie não lhe perdoa. Desaparece, declaradamente por dez anos. Que se escoam, enquanto observamos Julien. Não reage bem a esta privação, o nosso amigo Julien. Perde-se na monotonia de uma família perfeita, de uma carreira profissional bem-sucedida. Tem agora 35 anos.
E será aos 35, que se seguiram aos 25, que Sophie voltará. Em grande estilo, como sempre. A vida voltou, o sangue corre de novo nas suas veias, como se tivesse permanecido congelado no decorrer da última década. Mas agora, não haverá espaço para mais adiamentos. As coisas terão que ficar definidas de uma vez por todas.

Observando a contracapa do DVD, uma citação chama-nos a atenção: "... inquestionavelmente original..." (Manuel Menamo, JN). Nada mais acertado! Quer se goste deste filme, que se deteste, nunca ninguém poderá acusá-lo de falta de originalidade, qualidade que aliás se torna preciosa em cinema, com a perda crescente de ideias frescas, sobretudo a Oeste. Aceitemos que a originalidade é então o ponto mais forte da obra. Em várias vertentes. A história, o seu desenvolvimento, a realização. Passemos para o extremo oposto. O que há-de pior neste filme? Paradoxalmente, a falta de originalidade. Passo a explicar: obtida a ideia, magnífica, e encontradas as fórmulas para a passar para cinema, rapidamente o filme se torna "mais do mesmo". Parte considerável dos já curtos 90 minutos é constituida pela repetição do desafio: "Topas ou não?". Algumas consequências serão essenciais para o contar da história. Outras... não. E é assim que o espectador se arrisca a encontrar o aborrecimento. Desafio, resposta; encontro, separação; desafio, resposta; conflicto, conflicto; desafio, resposta; encontro-separação. Corre-se o risco de tornar o original repetitivo, e assim destrui-lo. É apenas um risco. Alguns senti-lo-ão de forma positiva, outros... não.
Como já imagina o leitor, eu fui do que se senti entediado com a repetição exaustiva. Mas ao mesmo tempo conquistado pela originalidade inicial. Estabeleceu-se assim uma espécie de relação amor-ódio com o filme, que resulta numa classificação mediana. Não porque a obra seja mediana, que não é, mas pela simples aritmética da média. Também não gostei da caracterizção (ou sua ausência) dos actores que parecem passar pelos tempos sem vestígios de envelhecimento. Tomara a mim que vinte e cinco anos me tivessem deixado com traços tão suaves como os que sofreu o pai de Julien, ainda para mais tomando em consideração os tormentos a que foi sujeito, com a perda precoce da companheira que se pretenderia para toda a vida, e com a incompatibilização com o filho e posterior separação definitiva. Um detalhe que fica na retina: pela simples matemática do tempo, a acção do filme inicia-se, digamos, em 1980. Contudo, toda a ambiência montada para esses tempos iniciais aponta para meados dos anos 60. Vá-se lá saber porquê.
Som & Imagem
A New Age Entertainment não costuma brincar em serviço quando prepara uma edição em DVD. Mais uma vez, não nos desiludiu. Sinceramente não sei se foi a primeira editora a lançar no mercado português um DVD com som DTS, mas a presença deste potencial sonoro tornou-se habitual. Não seria sincero se escrevesse que a mistura de canais transmite de forma perfeita a sensação de envolvimento que se poderia extrair de um excelente DTS. Mas mesmo assim, o trabalho desenvolvido é francamente positivo. O som ganha em clareza aquilo que cedeu na distribuição pelos canais. É limpido, se bem que discreto. É potente. Enfim, é DTS. A imagem não apresenta vestígios incomodativos de artefactos digitais. Encontra-se dentro dos padrões medianos que esperamos encontrar numa boa edição em DVD.
Extras
Em Filmagens: pequeno trecho, ridiculamente pequeno, com alguma metragem rodada durante a produção, e umas quantas frases soltas que a comentam. A sua quase inexistência torna-a algo rídicula.
Videoclip de uma interpretação de La Vie en Rose. Falta, pelo menos, a indicação do nome da artista que interpreta a versão, algo que não existe nem na contracapa do DVD nem sequer no próprio Videoclip. É aliás uma versão desgarrada que passa por nós sem deixar marcas. O que fica no ouvido é, isso sim, o cantar simples da menina que é Joséphine Lebas-Joly, a jovem Sophie, do mesmo tema.
Entrevistas: o melhor pedaço. Vinte e três minutos de declarações divididas pelos actores Guillaume Canet e Marion Cotillard e pelo realizador Yann Samuel.
Para terminar temos uma breve sequência de imagens, acompanhadas de um trillha musical, e as chamadas notas de produção. São boas. Dezoito páginas, aliás, "screens", com informação útil e interessante, que lemos com prazer.
Diversos
A embalagem revela a influência artística que preside a muitas das edições da New Age, com uma capa inspirada na imagem promocional da obra e uma contracapa de cores garridas, com a informação disposta de forma clara, apesar de nem sempre se encontrar correcta: não é que seja grave, mas o filme tem exactamente 89 minutos, o que é bem menos do que os 94 minutos aproximados que são indicados. Não gostámos da sensação de pobreza que é transmitida pela ausência de uma pagela interior, por exemplo, com a lista de capítulos; o branco cru e frio do plástico da embalagem pode ser desagradável.
A tradução não nos dececpionou e as legendas são brancas, de um tamanho agradável e leitura fácil. Os menus revelam uma criatividade geralmente bem aplicada, apesar de um dos seus aspectos mais importantes nos ter desagradado abertamente: o som do menu principal, ou melhor, a música escolhida. Sem qualquer relação aparente com o espirito da obra, pode destruir a paciência de um santo se o filme não for iniciado rapidamente.
Análise possibilitada pela cortesia da New Age Entertainment
Um texto de Ricardo Ribeiro
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